sábado, 12 de maio de 2018





Selene
(2)
maria helena sleutjes





Saiu do quarto, meio perturbada com aquela figura estranha no espelho, e foi caminhar pela praça. Sentou-se num banco tentando sondar-se mais atentamente. O sorveteiro parou seu carrinho diante do banco onde estava sentada. - Vai um sorvete hoje? Perguntou sorridente. Procurou dentro da bolsa uma nota de R$10,00 para comprar um sorvete de caixinha. Olhou para o sorvete pensando que não devia identificar-me com ele. Sorriu. Esta identificação é uma construção mental, apressou-se a se alertar. Construções mentais podem ser prisões disfarçadas que nos impedem de ver a realidade. Que realidade? Era a outra do espelho ou o sorvete? Fabricava a realidade? Levantou-se e caminhou até o outro lado da praça. Viu um casal de namorados se beijando. O amor também é uma construção mental? Perguntou-se para provocar-se um pouco mais. A tarde caia calma e silente. Aos poucos a luz do sol foi se afastando para outros mundos e levando consigo seus questionamentos, sua ignorância sobre a vida, deixando-a assim recolhida em si mesma, como uma concha que luta contra o medo, mas ainda não conseguiu destruí-lo por completo. Era aquela outra do espelho... Precisava se assumir por completo.

Um comentário:

  1. O medo em se abrir, e sei que dentro há uma pérola amada e querida, que vida linda e repleta de interrogações, dúvidas?

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