segunda-feira, 14 de maio de 2018

Selene 3

Selene
(3)



Vivia amplos desafios, e muitas vezes, em meio a sensações de fragilidade e desamparo, via-se solenemente instalada em sua história. E ela se desenrolava qualquer que fosse a circunstância, favorável ou desfavorável;  ela a sacudia  e a fazia crescer em compreensão e análise.  Estava só. Sempre esteve só. Vivia um dia de cada vez, e já compreendia que seu futuro viria tão somente como consequência de seus atos e seus pensamentos, e iria lhe tocar a face, o corpo, e talvez, o coração. O futuro poderia fortalecê-la se conseguisse se  conectar com seu eu maior, com aquilo  que existe em cada pessoa,  e neste plano, não pode ainda se manifestar por inteiro. Por isso, buscava  melhorar-se a todo momento. Buscava capacitar-se para enfrentar esta vida de contrastes. Nesta trajetória, tudo ia perdendo a importância e ganhando  desapego, compreensão, essência. 

sábado, 12 de maio de 2018





Selene
(2)
maria helena sleutjes





Saiu do quarto, meio perturbada com aquela figura estranha no espelho, e foi caminhar pela praça. Sentou-se num banco tentando sondar-se mais atentamente. O sorveteiro parou seu carrinho diante do banco onde estava sentada. - Vai um sorvete hoje? Perguntou sorridente. Procurou dentro da bolsa uma nota de R$10,00 para comprar um sorvete de caixinha. Olhou para o sorvete pensando que não devia identificar-me com ele. Sorriu. Esta identificação é uma construção mental, apressou-se a se alertar. Construções mentais podem ser prisões disfarçadas que nos impedem de ver a realidade. Que realidade? Era a outra do espelho ou o sorvete? Fabricava a realidade? Levantou-se e caminhou até o outro lado da praça. Viu um casal de namorados se beijando. O amor também é uma construção mental? Perguntou-se para provocar-se um pouco mais. A tarde caia calma e silente. Aos poucos a luz do sol foi se afastando para outros mundos e levando consigo seus questionamentos, sua ignorância sobre a vida, deixando-a assim recolhida em si mesma, como uma concha que luta contra o medo, mas ainda não conseguiu destruí-lo por completo. Era aquela outra do espelho... Precisava se assumir por completo.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

SELENA
(1)

maria helena sleutjes




Colhia flores e frutos 
para apaziguar seu desejo,
e então, comia-os um a um. 
De vez em quando, 
recitava pequenas canções 
para ninar vaga-lumes 
perdidos no meio do dia. 
É claro que vivia 
fora da órbita do planeta, 
e vestia-se 
com a transparência da lua, 
todas as noites. 
Adormecia 
em estado de vigília constante 
porque a vida era 
muito estranha. 
Olhava atentamente 
o movimento dos corvos, 
as cores das casas, 
a sinuosidade das ruas, 
o desnível das calçadas,
mas, 
nunca se olhava no espelho.